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segunda-feira, abril 17, 2017

Há um ano, impeachment de Dilma na Câmara acabava em pizza e confetes


BRASILIA, DF, BRASIL, xx-xx-2015, O plenário da Câmara dos Deputados aprovou hoje (17) a abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A votação ainda não terminou, mas já atingiu os 342 votos favoráveis necessários para dar continuidade ao processo de afastamento da presidenta. O deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) deu o 342º voto pelo andamento do impeachment, que agora será analisado pelo Senado Federal. Trinta e seis deputados ainda não votaram. O quórum no painel eletrônico do plenário da Câmara registra 511 parlamentares presentes na sessão. Até o placar que definiu a abertura do impeachment, 127 deputados votaram "não" e seis se abstiveram. Dois parlamentares não compareceram.. (Foto: Renato Costa/Folhapress, PODER)

"Que Deus tenha misericórdia desta nação. Voto sim", disse o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em 17 de abril de 2016. Há um ano, a Câmara dos Deputados autorizava a abertura do processo de impeachment contra a primeira mulher a presidir o Brasil.

Dilma Rousseff começava a cair, e, um ano depois, a Casa também. Ao menos parte dela. Dos 39 deputados investigados no Supremo Tribunal Federal, por suspeitas de caixa dois e corrupção que vieram à tona com as delações da Odebrecht, 21 votaram pela queda da petista, 13 contra, dois se abstiveram e três eram suplentes à época.

Há um ano, o plenário ficou coberto de cartazes verde-amarelos com "tchau, querida!", bordão que oposicionistas adotaram a partir da despedida do ex-presidente Lula num telefonema com Dilma divulgado pelo juiz Sergio Moro. Deputados citaram 65 vezes a palavra "corrupção", cinco a mais do que "Deus".

Muitos dos que a evocaram estão hoje enroscados Lava Jato. A começar por Cunha: por meses, o então líder da Câmara aproveitou seu poder de pôr o impeachment em votação para fazer "chantagem explícita", como Dilma diria depois.

A gota d'água veio em dezembro de 2015, quando o PT apoiou o processo no Conselho de Ética que acabaria cassando seu mandato. Motivo: quebra de decoro parlamentar. Colegas decidiram que Cunha mentiu a eles ao negar que tivesse contas na Suíça, que seriam depositários de propina.

Cunha hoje: cassado, preso e condenado pelo juiz Moro a 15 anos de prisão, numa das três ações que o têm como réu na Lava Jato. Já viu dias melhores. Seu aniversário de 57 anos, em 2015, por exemplo.

Colegas do PMDB fizeram uma vaquinha (R$ 80 cada) para sua festa no restaurante Coco Bambu, em Brasília. Teve "Parabéns pra Você" com música ao vivo, bolo de chantilly e trilha com Lulu Santos e "Tocando em Frente", sertanejo que fala sobre como "cada um de nós compõe a sua história".

A história que Cunha compôs para si fez dele "um troféu, um boi de piranha", diz o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), fiel aliado até o fim. Marun articulou manobras no Conselho de Ética para adiar a cassação do colega. Objetivo confesso: blindar Cunha até o impeachment.

"Tem gente que torcia [para Dilma sair], tem gente que precisava agir para isso acontecer. Eu fui um destes." O "Dia D" aconteceu num domingo. Na sexta, a Câmara começou o que seria a maior sessão de sua história -34 horas debatendo a deposição de Dilma. Marun pernoitou num sofá do salão vizinho ao plenário.

O impeachment? Acabou em pizza. Era esse o prato principal na casa do deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), apelidado de "Boca Mole" na planilha do departamento de propinas da Odebrecht. Naquela noite, Fortes deu uma festa para celebrar o placar contra o PT. Marun chegou já de madrugada. Tomou um vinho "de excelente qualidade" e pediu para requentarem a pizza.

Antes, passou em outra comemoração, esta na residência de Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG), e num coquetel no Palácio do Jaburu, para um beija-mão em Michel Temer, o vice que viraria presidente. Hoje Marun é peça-chave no governo, como presidente da comissão da Previdência.

RESSACA

Se Brasília estava em festa, a ressaca viria nos meses seguintes. Houve deputado literalmente jogando confete para celebrar a debacle de Dilma. Com uma bandeira do Pará feita de capa, Wladimir Costa disse que o PT dava um "tiro de morte" no coração do povo brasileiro e disparou um rojão com papel picado no plenário antes de votar "sim".

Três meses depois, o Tribunal Eleitoral Regional do Pará cassou seu mandato, por acreditar que ele recebeu dinheiro de "fontes não declaradas" para a campanha. Wladimir nega e se mantém no cargo até decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Não é o único que roubou a cena no impeachment e depois se envolveu em escândalos próprios. Bruno Araújo (PSDB-PE) não tinha expressão nacional até dar o 342º dos 367 "sim" contra Dilma, voto definitivo para a aprovação do impeachment na Casa.

Após 5h20 de sessão, Lacrimejando, exaltou a "honra [que] o destino" lhe reservou. Virou ministro das Cidades e, agora, um dos oito titulares da Esplanada de Temer sob escrutínio no Supremo –delatores disseram que a Odebrecht teria repassado R$ 600 mil a "Jujuba", codinome de Araújo, que defendeu interesses da empreiteira na Câmara.

O deputado Paulinho da Força (SD-SP) cantava um ano atrás: "Dilma vai embora que o Brasil não quer você, e leva o Lula junto e os vagabundos do PT", encaixando a letra na melodia de "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores", música de protesto de Geraldo Vandré.

Status atual: também na malha fina do Supremo, é acusado de aceitar dinheiro da Odebrecht para bancar eventos de sua central sindical, a Força Sindical, no Dia do Trabalho, e também para financiar suas campanhas.

"O meu voto", começou Raquel Muniz (PSD-MG), "é para dizer que o Brasil tem jeito, e o prefeito de Montes Claros mostra isso a todos nós". Falava do marido, que no dia seguinte receberia a Polícia Federal em casa. Ruy Muniz foi preso sob suspeita de desviar recursos para beneficiar um hospital de sua família.

Sua gestão adotou o slogan "Tolerância Zero Contra a Corrupção". A PF batizou a operação que o prendeu de Tolerância Zero. Ruy foi solto com um habeas corpus e, já afastado do cargo, teve prisão decretada de novo. Passou parte da campanha pela reeleição foragido. Perdeu nas urnas.

Cabo Daciolo (PTdoB-RJ) acha que tanta malfeitoria não é de Deus. No começo de abril, o parlamentar evangélico correu sete voltas em torno do Congresso. Finalizou com um grito de guerra: "Toda glória ao senhor Jesus". Crê que assim expulsará o "Satanás da corrupção" e promover "a queda do governo dos ímpios".

Ele se diz "fora, Temer, fora todo mundo". Um ano atrás, aderiu ao "tchau, querida", não sem antes visitar Dilma no Palácio da Alvorada, onde lhe ofereceu uma oração. Diz que a então presidente "recebeu a palavra" com olhos fechados. "Falei que ela não precisava do meu voto, e sim de Jesus. Acredito que aquele momento ficará na memória dela."

Na memória de Silvio Costa (PTB-PE), um dos mais aguerridos escudeiros de Dilma, ficou a imagem de colegas recebendo ligações "até o último minuto" de empresários, que os pressionavam para votar pelo impeachment –que ainda passaria pelo Senado, quatro meses depois.

Para ele, garantir o "sim" de 367 deputados teve um preço. "Temer transformou o Jaburu num shopping center nos 20 dias [que precederam a votação]", diz Costa, que escreve "A Presidenta e Eu", sobre o 17/4/16.

Júlio Delgado (PSB-MG) diz que tentou articular uma frente "nem-nem": nem Dilma nem Temer. Cerca de 20 deputados teriam se comprometido com a causa mas, na manhã da sessão, "nem três apareceram". Rival de Cunha, acusa o ex-presidente da Câmara pelo "circo armado" no dia –como escolher um domingo, dia de boa audiência, para a sessão.

Naquele "dia dantesco", acabou votando "sim", como 29 dos 35 deputados do PSB.

ENXOFRE

Com seu "não", Glauber Braga (PSOL-RJ) viu seu número de seguidores no Facebook saltar de 30 mil para 140 mil. "O que dá sustentação à sua cadeira cheira a enxofre", disse em direção a Cunha.

Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lembra do discurso de Braga, que evocou o guerrilheiro Carlos Marighella, para justificar sua homenagem ao ex-chefe do DOI-Codi, órgão que torturou quem fez oposição ao regime militar, como a mulher sob julgamento naquele domingo.

"Chegou meu momento, fiz minha saudação. Só Marighella pode?" A dele: "Pela memória de Brilhante Ustra, o pavor de Dilma [...], meu voto é sim". Voltaria a ficar sob holofotes, quando Jean Wyllys (PSOL-RJ) cuspiu nele, que teria lhe dirigido comentários homofóbicos –o que Bolsonaro nega.

Segundo Delgado, todos em volta ouviram parlamentares açoitarem Wyllys com frases como "vai acalentar a Dilma porque ela não gosta de homem, e você, de mulher". Um ano depois, o Conselho de Ética deu uma advertência a Wyllys por quebra de decoro.

Bolsonaro afirma que só "30%" do cuspe o atingiu. "Pegou muito mais no Luis Carlos Henze [PP-RS]." Wyllys disse que gastaria saliva de novo "na cara de um fascista".

Fonte: Folha de São Paulo

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